Arquétipos, um modismo ou algo eterno?

Arquétipos, um modismo ou algo eterno?

Nos últimos tempos, o tema dos arquétipos tem ganhado destaque, o que levanta a questão: será apenas um modismo passageiro ou algo com uma relevância duradoura? 

Neste artigo, exploraremos a natureza dos arquétipos, sua conexão com o consciente e o inconsciente, e como eles exercem influência na vida humana.

A origem dos arquétipos na filosofia de Platão

Os arquétipos não são uma ideia nova. Na verdade, eles remontam à filosofia de Platão, que os considerava como formas elementares que influenciam a maneira como interpretamos o mundo e as pessoas ao nosso redor. 

Inegavelmente, os arquétipos são representações arcaicas e profundas de temas universais que herdamos dos nossos ancestrais e da própria humanidade.

Remonta desde a filosofia platônica, cujo conceito central traduz uma distinção entre a realidade que é perceptível, mas ininteligível e a realidade que é imperceptível, mas inteligível. 

O idealismo platônico consiste em diferenciar o conhecimento sensível, inferior e enganoso, obtido pelos sentidos do corpo, do conhecimento inteligível, superior e ideal, que acessaria a verdade sobre as coisas. 

Por isso mobiliza aspectos ininteligíveis, mas que exercem grande influência nos processos sensoriais, mentais, emocionais e energéticos dos seres humanos.

A relação entre consciente e inconsciente na compreensão dos arquétipos

Por certo, não há como compreender os arquétipos, sem antes entender a relação dialética entre consciente e inconsciente, como opostos primordiais da vida psíquica.

Sob o aspecto consciente podemos manter apenas uma pequena parcela dos elementos e conteúdos advindos do inconsciente, que é mais amplo e abrangente.

A consciência é gerida pelo ego (consciência egóica) e nos permite julgar a realidade, diante das diversidades. Julgar e discriminar é importante, para interagir o mundo, o que não é razoável, é estabelecer sentenças, por meio de uma consciência tão limitada. 

Quando, por exemplo, estabelecemos a consciência por meio de recortes dogmáticos ou mesmo literais, restringimos, em muito, a capacidade de compreender a realidade, tornando-nos autômatos, no lugar de nos libertar por meio de uma maior consciência diante da vida. 

Os instrumentos da consciência do ego, são desde os cinco sentidos até a intuição, passando pelo pensamento e o sentimento, que estão relacionados também aos tipos psicológicos da introversão e da extroversão.

O inconsciente é formado por imagens arquetípicas

Para Carl Jung, o inconsciente, é o mundo escondido tanto do mundo interno quanto do mundo externo, que escapa ao controle da consciência, mas exerce grande influência nas emoções, nas atitudes e na vida do ser humano, sem que ele se dê conta disso.

O conteúdo do inconsciente possui, então, força criativa e nunca se cala. O inconsciente é a mãe da consciência e divide-se em duas camadas: o pessoal e o coletivo. Ainda segundo Jung: “até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamar isso de destino.”

O inconsciente pessoal e suas manifestações

O inconsciente pessoal, no âmbito particular de cada ser humano, representa um reservatório de experiências vividas, daquilo que foi consciente um dia, mas que está momentaneamente reprimido ou mesmo esquecido. Tudo o que o ego, sendo a expressão da consciência, não suporta mais, é transferido então da consciência para o inconsciente pessoal, que por sua vez pode se manifestar através da produção de sonhos, por exemplo.

No inconsciente pessoal, residem os complexos, que são padrões de emoções, memórias, percepções e desejos, organizados em torno de um tema comum. Já o inconsciente coletivo, é formado por arquétipos, que são representações arcaicas e profundas de temáticas universais que cada Ser Humano herda dos seus ancestrais e da própria humanidade.

Arquétipos, são imagens primordiais.

O conceito de arquétipo surge em 1919, quando Jung ainda em contato com Freud, seguiram linhas semelhantes nos estudos relativos ao tema. Segundo Jung, os arquétipos são conjuntos de imagens primordiais, com origem por meio de repetição progressiva de uma mesma experiência durante gerações, armazenadas no inconsciente coletivo.

Já o inconsciente coletivo, comum a toda a humanidade, desde o início dos tempos, é fruto da repetição de experiências, culminando no desenvolvimento de significados comuns a espécie humana. Reúne a herança evolutiva, que em algum momento nasceu na psique de cada ser humano. Trata-se de um nível profundo de unidade de toda humanidade e pode expressar-se por meio de sonhos ou escolhas, muitas vezes incompreendidas.

A origem filosófica dos arquétipos: a visão de Platão sobre as formas elementares

A palavra arquétipo, cuja raiz grega “arché” significa antigo, arcaico ou original e o sufixo “typos”, com o sentido de forma, molde ou impressão, descreve uma imagem ou forma original, imagética, para dar significado às experiências humanas. Esta ideia, no entanto, como dito acima, iniciou-se por meio da filosofia platônica (428/348 a.C.), onde se constatou que o mundo é influenciado por impressões prévias, que à medida do tempo, vão sendo cravadas nas mentes humanas e ficam ali sedimentadas por milênios. 

Platão as tratou como formas elementares, algo como um gabarito associativo ao qual recorremos para traduzir o mundo e as pessoas. Estruturas ideativas às quais associamos testemunhos dentro da mente, todo o tempo. Segundo Platão, no universo, existe o plano das ideias (mundo não manifesto) e o plano da matéria (mundo manifesto). Tudo que faz parte do plano da matéria, passou antes pelo plano das ideias, onde se encontra nestas formas elementares.

A definição de arquétipos por Carl Jung

Segundo Jung, os arquétipos são conjuntos de imagens primordiais, que tem origem por meio de repetição progressiva de uma mesma experiência durante gerações, que são armazenadas no inconsciente coletivo.

No livro; Jung, o mapa da alma, Muray Stein cita:

 “Tanto o corpo material quanto a psique não precisam ser derivadas um do outro. São antes, duas realidades paralelas que estão sincronicamente relacionadas e coordenadas […] Há uma dimensão na qual a psique e o mundo interagem intimamente e se refletem reciprocamente. Esta é a tese de Jung.” 

Esta é a definição de sincronicidade…

Com este raciocínio, podemos compreender o porquê o tema arquétipo tomou tamanha dimensão, pois funciona como um veículo na relação dialética entre o consciente e o inconsciente.

Contudo, é preciso evitar a ideia literal, de que é possível manipulá-los para atuar no mundo consciente, ou mesmo, fazer algo para produzir determinados resultados.

Particularmente, vejo os arquétipos como uma lente, com a qual conseguimos enxergar melhor a realidade, cujo domínio pode significar um aprofundamento sobre a compreensão dos mundos interno e externo, possibilitando interagir de forma mais efetiva, com situações, estratégias e pessoas.

Nesta perspectiva dialética entre consciente e inconsciente, o Tarô se apresenta como uma extraordinária alternativa. O oráculo, cujas origens são indeterminadas, mas que nos últimos setecentos anos ocupa a psique humana de forma inconteste, surge deste inconsciente coletivo que abriga os principais arquétipos da experiência humana, cuja aceitação e compreensão podem variar dependendo da cultura e até de pessoa para pessoa, mas sempre convergem para assumir o seu verdadeiro caráter universal.

O Tarô e sua simbologia arquetípica universal (O oráculo do inconsciente)

O Tarô, formado por setenta e oito cartas ou arcanos (mistérios), divididos em dois grandes grupos: os arcanos maiores, representando os vinte e dois principais arquétipos da humanidade, portanto, relacionados aos aspectos inconscientes da psique; além dos arcanos menores, cujas cinquenta e seis cartas, divididas em quatro naipes, representam as funções psíquicas, que instrumentalizam a consciência egoica e os aspectos fenomenológicos da jornada humana.

Em outras palavras, a concepção do Tarô foi feita sincrônica e coletivamente, como um tipo de leitura simbólica do inconsciente coletivo. 

Inicialmente tido como um jogo, fora aos poucos sendo descoberto como um perfeito e intrincado instrumento para visitar os meandros da psique, nos seus aspectos conscientes e inconscientes. 

Sua rica simbologia e vasta representação arquetípica é capaz de inspirar e construir pontes, lidando numa área na qual a alma hesita entre o corpo e o espírito. 

Porém, para entrar em contato, é necessário que se tenha flexibilidade suficiente, tanto mental como emocional, para adotar uma atitude compassiva em relação ao que brota do inconsciente, sem, no entanto, ser arrastado por ele.
Aperte aqui e leia sobre  “Os arcanos maiores do Tarô e suas representações arquetípicas”

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